Cap.1
– Fuga
__Orfã!
Olhei ao redor, procurando a origem do “insulto”.
__Renegada... – cantarolou uma voz conhecida.
Caminhei em direção a saída.
__Sem teto!!!! – um coro de vozes declarou num uníssono.
Eu sabia que era verdade, sabia que todos os insultos
dirigidos a mim eram verdadeiros.
No entanto, eles ainda me machucavam.
A vida era muito cruel para alguém como eu...
Eu não sabia quem eram meus pais.
Fui deixada no orfanato com poucos dias de vida, e não
tinha nada sobre quem eu era, além de um nome, e um colar.
Olhei o colar em meu pescoço com a pedra roxa. Um colar,
uma cesta e nada mais. Era tudo o que eu sabia sobre minha origem.
Sentei-me em um dos bancos do jardim olhando as crianças
brincarem.
__Alice! – ouvi Giovanna gritar, correndo em minha
direção.
Sorri encarando ela se aproximar.
__Você não vai acreditar! Você não vai acreditar! – ela
gritou animada segurando minhas mãos.
__Você tirou dez na prova de matemática? – perguntei em
duvida.
__Não, é muito, muito melhor... – lágrimas inundaram seus
olhos – Eu fui adotada.
Adolescentes não eram adotados, essa era a regra que
valia para as “crianças crescidas”. Minhas esperanças haviam acabado quando completei
doze anos, eu não pensava mais em ser adotada.
Todas as crianças ao meu redor eram adotadas. E eu
continuava lá, naquele orfanato, com a mesma vida.
Desejei ficar feliz por Giovanna, sorrir quando ela se
foi, mas eu não conseguia...
O garoto pelo qual eu sempre fora apaixonada havia se
tornado maior de idade, e partido do orfanato, a um ano. Seu nome era Pedro, e
ele sempre havia me tratado com tanto carinho e gentileza, que me apaixonar por
ele havia sido um reflexo a sua bondade.
Eu me sentia sozinha. Todos ao redor partiam. Sempre.
Será que eu também não deveria partir, então?
Durante duas semanas pensei.
Eu não tinha uma vida no orfanato, não tinha alguém que
me esperasse... alguém que me amasse...Não tinha nada. Ninguém.
__Alice. - uma das
garotas mais novas me despertou de meus pensamentos. – A diretora quer
conversar com você.
Caminhei até a sala da diretora. Bati na porta, e entrei
em seguida.
__Sente-se Alice – disse ela em tom amigável
A diretora do orfanato, era uma senhora idosa. Ela possuía um tipo de bondade
inacreditável. Ela havia me encontrado na porta do orfanato.
Seus olhos gentis me sondaram.
__Nunca me canso de olhar o modo como aquele pequeno bebê
se tornou uma jovem tão linda.
__Obrigada. – sorri envergonhada.
Certamente que ela
era a única pessoa que chegava mais perto de ser uma família para mim, mas,
ainda sim, isso não me parecia o suficiente.
__Alice, você é uma das crianças que mora a mais tempo
nesse orfanato... sei que você gostaria de ter sua própria família, e também
sei que sente a falta de Giovana. Por isso, gostaria de lhe dizer que pode
conversar comigo sobre qualquer coisa.
Ela me encarou, a espera de um rompante de lágrimas ou
algo parecido.
Eu não chorei. Nem mesmo disse a ela nenhum de meus
pensamentos.
Para que preocupar aquela “velha senhora” com meu drama
particular. Não depositaria mais problemas naqueles ombros já cansados.
__Estou bem senhora Diretora. Sou bem mais forte do que
pareço... – sorri, fingindo estar
feliz.
__Bem, se você esta bem, sem problemas...
***
Não foi difícil arrumar minhas coisas.
Tudo o que me pertencia cabia numa mochila. Algumas
roupas, um MP3 velho, uma lanterna, um perfume, uma escova de dente, uma pasta
e outros cacarecos inúteis.
Minhas lembranças... Coisas sem valor para os outros, que
eram importantes para mim.
Minha fuga foi tão simples, que eu fiquei surpresa ao me
encontrar do lado de fora.
O vento gelado chicoteava meu rosto. Encolhi-me em minhas
roupas. Meu velho moletom não era o suficiente para o frio invernal de Sampa.
Todos falavam mal de São Paulo. O Trânsito infernal, a
multidão sem fim, os estresse desconcertante dos escritórios.
Eu amava aquela cidade. Era minha casa, meu lugar.
As ruas estavam vazias. Pela primeira vez senti-me
apavorada de estar sozinha.
Meu plano era encontrar Pedro, ele me ajudaria. Estaria
ao meu lado, e finalmente eu teria um lugar no mundo.
Caminhei pela cidade, o vento uivava.
Depois de uma longa caminhada, eu já estava exausta.
Decidi descansar.
Encontrei uma casa abandona, e sem nenhuma cerimônia
dormi entre o pó e moveis quebrados.
Quando dia amanheceu voltei a minha caminhada.
Eu havia procurado alguma noticia sobre Pedro, e depois
de horas de procura eu finalmente havia encontrado algo.Uma pista de que ele
estava trabalhando em um café no centro
da cidade.
Eu o avistei do lado de fora, pelos vidros do café.
Sorri entrando no café. Ele sorriu, e eu senti meu
coração ser preenchido.
Minha alegria desapareceu no instante que eu avistei
Pedro abraçar uma mulher. Ela era tão linda que me senti diminuída.
Pedro beijou a desconhecida, e eu me senti ridícula.
***
Era um engano. Um tolo engano.Pedro nunca havia gostado
de mim. Era apenas gentileza. Um amor de irmão, nada mais.Ninguém me amava,
ninguém me queria.
Nem meus pais me queriam, por isso haviam me largado.
Entrei em uma biblioteca publica. Sentei entre os
corredores, e fiquei lá.
Minutos se tornaram horas, o dia acabava e eu me mantive
no mesmo lugar.
Quando finalmente despertei de meu torpor, estava
sozinha, trancada.
Sem alternativas, resolvi folhear alguns livros. Vagueei
entre as prateleiras de livros.
Um livro de capa marrom se destacava entre os outros.
Lia-se um titulo curioso nele:
“Cank, o livro dos mistérios”.
__Nada como um nome de impacto – murmurei aos risos.
Continuei caminhando entre as prateleiras. Novamente
avistei o livro.
Passei para a próxima estante, foi com espanto que
novamente encontrei o livro.
Ele parecia me esperar. Pedir para que eu o lesse.
__Hum... Por que não?
Estiquei-me na ponta dos pés e peguei o livro. Sentei-me
no chão e comecei a folheá-lo.
As paginas estavam em branco da primeira vez que eu as
observei, uma segunda olhada mais atenta pequenas letras tremeluziram diante de
meus olhos.
Era uma escrita antiga, talvez fenícia ou Latim. Uma
língua ilegível para mim.
Pisquei algumas vezes diante das paginas, e as palavras
que antes eram uma mistura de letras desconexas pra mim, tornou-se escrita
perfeita, com significado. Algo como uma profecia.
“Para a pequena viajante que a muito longe
do lar andou. Abra seus olhos para a maravilha de um novo mundo. A magia vai
guia-la, seu coração será sua bússola, e sua a mente será sua direção. Mas para
que seu destino possa encontrar veja além do que seus olhos podem te mostrar.”
Todo resto ainda me parecia ilegível. O que aquilo
significava?
Olhei novamente o livro. As letras pareciam brilhar
quando me focava nelas.
Um parágrafo ao acaso me chamou a atenção:
“Porta para um
novo mundo abra-se sem demora
para levar a pequena viajante ao seu lar.”
Um silêncio completo se espalhou. Eu não ouvia nem mesmo o som dos
carros na rua.
Aquilo me pareceu tão estranho.
Em seguida um pequeno estalido invadiu o comodo, seguido outro ainda
mais forte, e outro. O chão começou a ceder debaixo de meus pés.
Desesperada, tentando me
salvar eu segurei o livro e minha mochila e corri.
Quanto mais corria, mais perto o
buraco ficava o chão desaparecia abaixo de meus pés. Sem conseguir
mais escapar eu fui engolida pela escuridão.
Caindo sem destino certo.
Foi assim que tudo começou. Parecendo meu fim.
