terça-feira, 22 de setembro de 2015

Cap,1 - Fuga

Cap.1 – Fuga


__Orfã!

Olhei ao redor, procurando a origem do “insulto”.

__Renegada... – cantarolou uma voz conhecida.

Caminhei em direção a saída.

__Sem teto!!!! – um coro de vozes declarou num uníssono.

Eu sabia que era verdade, sabia que todos os insultos dirigidos a mim eram verdadeiros.
No entanto, eles ainda me machucavam.
A vida era muito cruel para alguém como eu...

Eu não sabia quem eram meus pais.
Fui deixada no orfanato com poucos dias de vida, e não tinha nada sobre quem eu era, além de um nome, e um colar.

Olhei o colar em meu pescoço com a pedra roxa. Um colar, uma cesta e nada mais. Era tudo o que eu sabia sobre minha origem.

Sentei-me em um dos bancos do jardim olhando as crianças brincarem.

__Alice! – ouvi Giovanna gritar, correndo em minha direção.

Sorri encarando ela se aproximar.

__Você não vai acreditar! Você não vai acreditar! – ela gritou animada segurando minhas mãos.
__Você tirou dez na prova de matemática? – perguntei em duvida.
__Não, é muito, muito melhor... – lágrimas inundaram seus olhos – Eu fui adotada.

Adolescentes não eram adotados, essa era a regra que valia para as “crianças crescidas”. Minhas esperanças haviam acabado quando completei doze anos, eu não pensava mais em ser adotada.

Todas as crianças ao meu redor eram adotadas. E eu continuava lá, naquele orfanato, com a mesma vida.

Desejei ficar feliz por Giovanna, sorrir quando ela se foi, mas eu não conseguia...

O garoto pelo qual eu sempre fora apaixonada havia se tornado maior de idade, e partido do orfanato, a um ano. Seu nome era Pedro, e ele sempre havia me tratado com tanto carinho e gentileza, que me apaixonar por ele havia sido um reflexo a sua bondade.
Eu me sentia sozinha. Todos ao redor partiam. Sempre.

Será que eu também não deveria partir, então?
Durante duas semanas pensei.
Eu não tinha uma vida no orfanato, não tinha alguém que me esperasse... alguém que me amasse...Não tinha nada. Ninguém.

__Alice. -  uma das garotas mais novas me despertou de meus pensamentos. – A diretora quer conversar com você.

Caminhei até a sala da diretora. Bati na porta, e entrei em seguida.

__Sente-se Alice – disse ela em tom amigável

A diretora do orfanato, era uma senhora  idosa. Ela possuía um tipo de bondade inacreditável. Ela havia me encontrado na porta do orfanato.
Seus olhos gentis me sondaram.

__Nunca me canso de olhar o modo como aquele pequeno bebê se tornou uma jovem tão linda.
__Obrigada. – sorri envergonhada.

Certamente que  ela era a única pessoa que chegava mais perto de ser uma família para mim, mas, ainda sim, isso não me parecia o suficiente.

__Alice, você é uma das crianças que mora a mais tempo nesse orfanato... sei que você gostaria de ter sua própria família, e também sei que sente a falta de Giovana. Por isso, gostaria de lhe dizer que pode conversar comigo sobre qualquer coisa.

Ela me encarou, a espera de um rompante de lágrimas ou algo parecido.
Eu não chorei. Nem mesmo disse a ela nenhum de meus pensamentos.
Para que preocupar aquela “velha senhora” com meu drama particular. Não depositaria mais problemas naqueles ombros já cansados.

__Estou bem senhora Diretora. Sou bem mais forte do que pareço... – sorri,    fingindo estar feliz.
__Bem, se você esta  bem, sem problemas...

***
Não foi difícil arrumar minhas coisas.
Tudo o que me pertencia cabia numa mochila. Algumas roupas, um MP3 velho, uma lanterna, um perfume, uma escova de dente, uma pasta e outros cacarecos inúteis.
Minhas lembranças... Coisas sem valor para os outros, que eram importantes para mim.

Minha fuga foi tão simples, que eu fiquei surpresa ao me encontrar do lado de fora.
O vento gelado chicoteava meu rosto. Encolhi-me em minhas roupas. Meu velho moletom não era o suficiente para o frio invernal de Sampa.

Todos falavam mal de São Paulo. O Trânsito infernal, a multidão sem fim, os estresse desconcertante dos escritórios.

Eu amava aquela cidade. Era minha casa, meu lugar.

As ruas estavam vazias. Pela primeira vez senti-me apavorada de estar sozinha.
Meu plano era encontrar Pedro, ele me ajudaria. Estaria ao meu lado, e finalmente eu teria um lugar no mundo.
Caminhei pela cidade, o vento uivava.

Depois de uma longa caminhada, eu já estava exausta. Decidi descansar.
Encontrei uma casa abandona, e sem nenhuma cerimônia dormi entre o pó e moveis quebrados.

Quando dia amanheceu voltei a minha caminhada.
Eu havia procurado alguma noticia sobre Pedro, e depois de horas de procura eu finalmente havia encontrado algo.Uma pista de que ele estava trabalhando em um  café no centro da cidade.

Eu o avistei do lado de fora, pelos vidros do café.
Sorri entrando no café. Ele sorriu, e eu senti meu coração ser preenchido.
Minha alegria desapareceu no instante que eu avistei Pedro abraçar uma mulher. Ela era tão linda que me senti diminuída.
Pedro beijou a desconhecida, e eu me senti ridícula.

***
Era um engano. Um tolo engano.Pedro nunca havia gostado de mim. Era apenas gentileza. Um amor de irmão, nada mais.Ninguém me amava, ninguém me queria.
Nem meus pais me queriam, por isso haviam me largado.

Entrei em uma biblioteca publica. Sentei entre os corredores, e fiquei lá.
Minutos se tornaram horas, o dia acabava e eu me mantive no mesmo lugar.

Quando finalmente despertei de meu torpor, estava sozinha, trancada.
Sem alternativas, resolvi folhear alguns livros. Vagueei entre as prateleiras de livros.
Um livro de capa marrom se destacava entre os outros. Lia-se um titulo curioso nele:
“Cank, o livro dos mistérios”.

__Nada como um nome de impacto – murmurei aos risos.

Continuei caminhando entre as prateleiras. Novamente avistei o livro.
Passei para a próxima estante, foi com espanto que novamente encontrei o livro.
Ele parecia me esperar. Pedir para que eu o lesse.

__Hum... Por que não?

Estiquei-me na ponta dos pés e peguei o livro. Sentei-me no chão e comecei a folheá-lo.
As paginas estavam em branco da primeira vez que eu as observei, uma segunda olhada mais atenta pequenas letras tremeluziram diante de meus olhos.
Era uma escrita antiga, talvez fenícia ou Latim. Uma língua ilegível para mim.
Pisquei algumas vezes diante das paginas, e as palavras que antes eram uma mistura de letras desconexas pra mim, tornou-se escrita perfeita, com significado. Algo como uma profecia.

“Para a pequena viajante que a muito longe do lar andou. Abra seus olhos para a maravilha de um novo mundo. A magia vai guia-la, seu coração será sua bússola, e sua a mente será sua direção. Mas para que seu destino possa encontrar veja além do que seus olhos podem te mostrar.”

Todo resto ainda me parecia ilegível. O que aquilo significava?
Olhei novamente o livro. As letras pareciam brilhar quando me focava nelas.
Um parágrafo ao acaso me chamou a atenção:

Porta para um novo mundo abra-se sem demora para levar a pequena viajante ao seu lar.

Um silêncio completo se espalhou. Eu não ouvia nem mesmo o som dos carros na rua.
Aquilo me pareceu tão estranho.
Em seguida um pequeno estalido invadiu o comodo, seguido outro ainda mais forte, e outro. O chão começou a ceder debaixo de meus pés.
Desesperada, tentando me salvar eu segurei o livro e minha mochila e corri.
Quanto mais corria, mais perto o buraco ficava o chão desaparecia abaixo de meus pés. Sem conseguir mais escapar eu fui engolida pela escuridão.
Caindo sem destino certo.


Foi assim que tudo começou. Parecendo meu fim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário